O Guerreiro e o Agricultor

Esse texto é uma autorreflexão sobre o processo de crescimento no qual me encontro agora.

 

Ouvi de um querido amigo esses dias uma metáfora que falam sobre dois tipos de pessoas: o guerreiro e o agricultor.

O guerreiro vive sua vida em batalhas. Buscando sempre, em nome de algo maior que ele mesmo, lutar para que floresça aquilo que acredita. Mesmo cansado possui a habilidade de levantar, empunhar a espada e ir a guerra. Não deixará que seus filhos e seus irmãos sejam feridos. É uma energia que vai de dentro para fora. Forte e direta. Seu apoio são os irmãos de batalha, que ao seu lado, formam o exército que o acompanha.

Mas espiritualmente, todo guerreiro sente-se sozinho. Incompreendido por ter de ser a pessoa que corta cabeças no meio do caminho. E isso é muito difícil pois ao olhar no olho do inimigo ele se reconhece. Mas em nome de algo maior, ele terá de matar esse (nem tão) inimigo. E nesse golpe, parte dele morre junto.

Em algum lugar não muito longe desse campo de batalha está o agricultor. Seu chapéu e seu jardim são tudo que ele tem de companhia. Para ele, a vida se manifesta de fora pra dentro. Ele pode sentir a vida dentro de si, admirando seu campo de flores, cuidadosamente regadas, podadas e acolhidas. Possui a habilidade de ver no campo a glória de Deus se manifestando. Sua flor e o céu estão intimamente conectados.

“A chuva é a maneira que a terra e o céu, eternamente apaixonados um pelo outro, encontraram para estarem juntos”.

Eu entendo a dor do guerreiro. Chego a sentir no meu peito a dor da batalha e da morte. Mas não sou ele. Aprendo e tenho cada dia um pouco mais desse sagrado em mim, buscando integrar a força e a construção da batalha em nome de algo maior. Porém:

Hoje, sou mais como o agricultor. Como um jardineiro.

A solidão de um agricultor é a da inocência, de acreditar demais na beleza que ninguém vê.

Ninguém entende a beleza das flores, do cheiro sentido que o Amor exala, de entender Deus na manifestação da impermanência das coisas. São muitos os que acham seu jardim belo, mas não conseguem contemplar a beleza da vida ali, das aguas passadas e derramadas, do presente colorido e do futuro que se esvai.

Um jardineiro chamado Rubem Alves uma vez disse:

“O jardim, como a música, tem sua beleza nas constantes e imprevisíveis transformações (…)
Os jardineiros olham para o jardim e não podem determinar nada com precisão. (…) O jardineiro não olha para as estrelas para decidir sobre o que fazer com o seu jardim. Ele observa a paisagem, examina cada uma das plantas, o que foi verdade ontem pode não ser verdade hoje, vê as transformações, imagina
possibilidades não pensadas, cria novos cenários”

Pois essa é condição de vida que nos floresce a possibilidade de enxergar no outro a sua dor. E nesse campo do outro, a dor é fonte de rega para um possível jardim.

Certo ou errado de seus ideais, para o jardineiro não vale a pena estar vivo onde o outro é inimigo. Uma vida onde no campo não existam flores.

 

É preciso nessa vida guerreiros e agricultores. Eles são como Yin e Yang. O sagrado masculino do guerreiro que, mesmo sangrando, levanta, luta e constrói. E o sagrado feminino capaz de acolher a beleza da vida nas dores e na aceitação de si e dos outros.

Integrando os dois seremos inteiros. Parafraseando Gil “só a guerra faz, nosso amor em paz”

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